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sábado, dezembro 16, 2006

Crónica de uma goleada fora

A primeira coisa que se deve dizer como comentário ao jogo de ontem é que é uma felicidade para os adeptos ver jogos assim. No futebol, ganha-se e perde-se, mas são vitórias como a de ontem que empurram as equipas de encontro aos seus adeptos, formando a identidade na qual se formam os grande clubes de futebol.

Sejamos claros: a nossa equipa não é uma “equipa de sonho”, que pegue na bola e a circule abundantemente pelo meio campo do adversário, fazendo aquilo a que se chama o “domínio de jogo”.

Pelo contrário, é uma equipa que economiza e racionaliza o seu ataque e que está vocacionada para espremer ao máximo cada passagem do meio campo adversário.

Se nos libertarmos dos “clichés” habituais do futebol (cada vez mais em crise no futebol moderno) nada impede que se considere uma equipa com estas características como uma equipa forte. O Belenenses dos últimos jogos está claramente a sê-lo e parece estar a consolidar aquilo que lhe faltou nos últimos anos - uma identidade.

Aqui reside o grande mérito de Jorge Jesus. Transformou uma equipa com lacunas evidentes (aliás, claramente assumidas pelo próprio) numa equipa que faz dos seus pontos não lacunares pontos muito fortes, ganhando com isso jogos e começando a afirmar uma identidade que já não passa despercebida neste campeonato.

Mesmo para uma massa adepta calejada como a nossa, precavida para não sonhar alto, é impossível não se ficar entusiasmado com uma goleada fora como esta, num terreno fértil em desestabilizações emocionais e num jogo que seria um teste à capacidade de concentração e à mentalidade da equipa.

O teste foi superado e de que maneira!

Mais uma vez marcámos cedo, ainda antes da passagem do primeiro quarto de hora, coisa que fizemos pela terceira vez consecutiva. Pontua neste aspecto a forma correcta como a equipa agora entra em campo, sem desvios de concentração, séria e confiante perante o jogo.

Um Silas descaído para a direita foi o ponto de referência de um ataque muito bem servido por Zé Pedro, que, desta vez, não só marcou, como cumpriu exemplarmente a sua função de distribuidor de jogo.

Logo nos nossos primeiros artigos, salientámos o quão Silas e Zé Pedro são fundamentais numa equipa sem ponta de lanças e sem uma dinâmica de ataque que funcione com alas puros. Essa essencialidade tem sido demonstrada ao longo deste campeonato.

O nosso primeiro golo é disso um excelente exemplo. A defesa do Marítimo estava composta e em superioridade numérica. O que gera o golo é a qualidade fantástica do passe que rasga uma defesa e a classe do trabalho de Silas na área. Um golo de qualidade internacional!

A solidez defensiva responde a seguir, com uma defesa em linha que utiliza confiante e destemidamente o fora-de-jogo com isso coartando a racionalidade ofensiva do adversário.

Espremem-se, então, mais duas das armas que temos: a bola parada, saindo dos pés de Silas um cruzamento muito bom para a área de finalização e, na recarga, a meia distância, mais uma vez pelo “atirador furtivo”, por quem mais havia de ser.

Com 2-0 ao intervalo, a certeza da vitória começava a ganhar consistência.

A entrada na segunda-parte está longe de ser famosa. A nossa segunda linha defensiva (que engloba os trincos e os próprios médios-alas) desce perigosamente para perto da primeira, recuando a muralha para perto da nossa área. O Marítimo alonga a largura da frente de ataque e consegue jogar o suficiente nas alas (sobretudo na ala direita do seu ataque, esquerda da nossa defesa) para criar bastante perigo. Passamos assim 10 minutos de alguma pressão, sem que o muito espaço que o Marítimo abre atrás se si seja por nós aproveitado, faltando capacidade de retenção de bola e acontecendo um fenómeno já ocorrido em jogo anterior: com a recuperação de bola feita muito cá atrás, o nosso contra-ataque não consegue cumprir os 70 metros que o separam da baliza adversária.


Jesus lê muito bem o jogo. Percebe que é o nosso lado esquerdo que está em défice, sendo por aí que o Marítimo arrisca ofensivamente, mas, simultaneamente se desguarnece defensivamente. Manda entrar Eliseu, cremos que para ajudar a resolver o primeiro factor e para explorar o segundo.

Eliseu compensa-o resolvendo-lhe o jogo em 3 minutos, exibição que seguramente recordará pela sua carreira fora. O golo é fabuloso, não só pela forma rápida e destemida como arranca e aguenta o adversário que lhe vai no encalço, como pelo seu entrar na área de cabeça levantada, colocando o guarda redes perante a angústia do remate ou cruzamento, e acabando com uma colocação milimétrica da bola no buraco da agulha.

Três minutos depois, Eliseu repete a dose, desta vez carregado quando já tinha o corpo balanceado e a bola ajeitada para encher o pé.

Zé Pedro, frio e responsável, fez a bola ir para um lado e o guarda redes para o outro, naquilo a que se chama uma cobrança irrepreensível.

A vitória já tinha passagem marcada para Belém, mercê da exibição fantástica de uma equipa que jogou futebol de uma forma séria, adulta, dedicada e que esteve mais do que plenamente à altura da grande camisola que veste.

É certo que passámos por momentos de desconcentração e descompressão a seguir, tendo neles dado um golo ao adversário. Mas, nem nos preocupa este ponto. Com franqueza, não acreditamos que haja no globo terrestre uma equipa que esteja a ganhar 4-0 fora e que não descomprima nos instantes a seguir.

Para mais, o golo do adversário fez a equipa regressar aos seus níveis de concentração, sendo disso bom exemplo Costinha, que, logo após o brinde do 1-4, faz uma defesa fabulosa de grau de dificuldade extremo e que impediu o 2-4 e uma eventual galvanização do adversário.

É de notar que conseguimos, ainda, soltar algumas vezes o contra-ataque, construindo uma jogada fabulosa que culminou num belo golo de Amorim, mal anulado e que seria o 5º!

Uma exibição de gala de uma equipa que vestiu o fato de macaco.

Um fato de macaco “cor-de-laranja”, tonalidade que não deixa de nos horrorizar e de escandalizar (e cuja não repetição exortamos), mas que acaba associado a um resultado histórico.

Enfim, uma exibição e um resultado que hoje nos permitem entrar nos cafés onde se discute bola de cabeça erguida.

Apreciações individuais

Costinha (4) Não obstante a oferta do 1-4, merece nota positiva e alta pela segurança demonstrada durante o jogo e por duas defesas decisivas. Uma na primeira parte, num lance difícil e uma outra na segunda, esta de elevadíssimo grau de dificuldade e que merece entrar no anuário das grandes defesas do futebol Europeu.

Gaspar (3) Sem deslumbrar, esteve rijo e forte como é seu timbre.

Nivaldo (4) Mais uma vez ao seu estilo, quase omnipresente e a comandar uma defesa que esteve tacticamente irrepreensível. Tem na segunda parte o deslize que fez brilhar Costinha, mas o seu caudal de intervenções positivas durante o jogo mantém-no numa nota positiva alta

Rolando (4) Impecável

Alvim (3) Pela segunda vez consecutiva, cumpre, mas sem deslumbrar. Pouco subiu e, embora sem erros flagrantes, precisou de muita ajuda para parar o Marítimo no seu flanco na segunda parte.

Sandro (4) Exibição notável de um jogador que é dos que menos apreciamos no plantel. O posicionamento defensivo foi irrepreensível, sendo o maior responsável por emperrar o jogo ofensivo do Marítimo. A maior surpresa vai, porém, para alguma capacidade de manutenção e passe que lhe permitiu interagir com o ataque.

Amorim (5) A subir claramente de forma. Dedicado ao jogo e concentrado, jogou e deu a jogar. Mais uma vez, conseguiu ainda vir de trás e finalizar, coisa que é importante que faça e que só por erro da arbitragem não nos deu mais um golo.

Cândido (3) Lutador. Embora muito devagarinho, vai subindo de jogo para jogo. Mas, ainda falta muito para o 4.


Zé Pedro (5) Um jogo muitíssimo bom! A defender, a armar jogo, a rematar de meia distância e frio a cobrar a grande penalidade como se impõe. Assumiu todas as responsabilidades que tem na equipa com superioridade. É a prova viva de que, mesmo um "jogador de treinador" (aposta pessoal de Caravalhal), ganha como futebolista quando a mentalidade competitiva passa para outro patamar (o de Jesus). Nós ganhmaos imenso com isso. Consolida-se como a nossa grande marca futebolística!




Silas (5) Assumiu a sua condição de referência máxima do ataque neste jogo logo desde o início. Mostrou a classe que tem no excelente golo que nos abriu as portas da vitória.

Dady (3) Sem muita intervenção no jogo, demonstrou a entrega que se lhe reconhece.

Melhor em campo

Eliseu (5) Pode parecer injusto para Zé Pedro, mas o futebol tem algo de irracional. É certo que durante 90 minutos Zé Pedro esteve a altíssimo nível, mas o que Eliseu fez em 3 minutos vindo do banco só o pode colocar como figura do jogo. Bravo Eliseu!




Manoel e Cabral (1) Muito pouco tempo em campo



Jorge Jesus (5) (porque o limite é cinco, pois, se mais houvesse, mais o pontuaríamos) Merece inteiramente o estado de graça em que está. Tem trabalhado dedicadamente para isso. Há duas evidências: i) trabalho de base, traduzido na personalidade que a equipa apresentou em campo e ii) trabalho de banco. Ontem foi à Madeira dar uma aula sobre a matéria. Bravo Mister!




Notas finais:

É provável que se gere a partir de agora a infindável discussão sobre os benefícios e malefícios do “endeusamento” vs “a falta de ambição”. Não somos especialistas, mas o que o nosso senso comum nos diz é que a melhor receita é o “jogo a jogo”. Jesus parece segui-la.

O fundamental para nós é que a equipa não perca os seus caracteres de concentração e de entrega ao jogo, ou seja, que não perca a sua identidade em campo.

Não podemos ser “os maiores”, mas, também, não podemos ser os “coitadinhos”.

Deixemos as “europas”, mas deixemos também as “manutenções”, os “lugares tranquilos”, as “construções sustentadas”, “os meios da tabela”, as “etapas de crescimento”, etc., etc., etc,.

Façamos uma coisa mais simples: concentremo-nos e trabalhemos para ganhar o próximo jogo na Luz!

E assim sucessivamente.

As contas, depois, fazem-se no fim!

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