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domingo, dezembro 17, 2006

A questão do vínculo clubístico

Não é hábito deste espaço discutir aspectos genéricos do futebol Português ou outros que digam respeito a clubes que não o nosso.

O tema deste artigo poderá parecer deslocado face a este critério, mas não o é.

Trata-se, na verdade, de um tema altamente premente para nós: o grau de fidelidade da massa adepta às bancadas do seu clube, vulgo dizer, as “assistências”.

O caso que dá o mote a esta reflexão ocorreu esta semana e conta-se nas seguintes palavras: o Braga alcançou um feito histórico, que foi seguir em frente na Taça UEFA após passar a fase de grupos, mercê de uma vitória caseira sobre o Grashoppers. Enquanto o clube exultava com o feito, o presidente António Salvador destoava, dizendo-se desiludido, magoado e disposto a abandonar o clube. A razão era a escassa assistência que jogo havia tido - cerca de 11.000 pessoas. Salvador foi mais longe afirmando mesmo que “não valia a pena continuar” e que “se calhar era melhor mudar o clube para o Porto, Barcelos (esta última uma burrice galopante pois Barcelos tem ainda menos clubismo que Braga) ….” ou, suprema heresia, “…. para Guimarães”!

Se as afirmações de Salvador podem, à primeira vista, parecer compreensíveis e aceitáveis como crítica a uma massa adepta “ingrata” que não aproveita o excelente trabalho e esforço de gestão (que para nós é notável) da sua direcção e o seu efeito inegável de crescimento futebolístico, já uma análise mais profunda mostra outras coisas e permite chegar à chave do problema.

Para o fazer, nem sequer é preciso encomendar estudos a especialistas. A explicação é dada pelo Silva do restaurante “Silvas”, de Braga, que a Bola entrevistou quando andou pela cidade à procura do mistério das fracas assistência.

O Silva lá explicou que o problema era simples e que a própria pessoa que dele se queixava - o Salvador - era uma exemplificação clara do problema. É que o Salvador, pasme-se, é Dragão de Ouro! Ou seja, o Salvador dirige o Braga, mas tem as insígnia máximas do clube que fica 60 Km abaixo e que, em condições normais, deveria ser um foco de rivalidade mobilizadora do clube que dirige. Ainda nas palavras do Silva, aponta-se o síndroma do “duplo cachecol”, que, no caso de Salvador, se somarmos a insígnia dos Andrades aos seus recentes passeios ao México na íntima companhia do presidente do Benfica, numa viagem de promoção benfiquista à qual o presidente do Braga se associou como adereço, o problema pode ser mesmo de “triplo cachecol”.

O Silva explica o óbvio: o Braga pode ganhar, pode fazer proezas na UEFA, pode até chegar à Liga dos Campeões. Pode fazer isso tudo. Mas há um problema: não tem identidade! Vive na mais assumida promiscuidade com as forças dominantes do futebol Português. Em vez de afirmar a sua independência, a sua identidade, faz o contrário, dilui-a por todos os meios que tem ao seu alcance. E o Salvador, seu presidente, é disso o exemplo vivo.

Aliás, as suas ameaças de mudança para Guimarães são outra prova inequívoca de que ele representa muito mais o problema do que a solução. Trata-se de uma asneira absurda. A interpretação dessas palavras é a seguinte: o que interessa é arranjar uma equipa que jogue bom futebol que as pessoas, se não forem ingratas, vêm a correr. Para ele, os de Guimarães viriam. Salvador faz o seguinte raciocínio: se os Vimaranenses que andam pelos calabouços da Liga de Honra metem 20.000 no estádio, se fossem comigo (com ele) à UEFA punham 30.000 pelo menos.

Tremendo erro! Na realidade, não punham nenhum. Aliás, mesmo que se tornasse subitamente Vimaranense, Salvador nem lá entrava. E isso por duas razões que os de Guimarães (que têm identidade) não lhe perdoariam: porque é Dragão de Ouro e porque passeia de mãos dadas com o presidente do Benfica.

A reflexão, com a ajuda das palavras do Silva (que valem por 4.000 horas de acessoria da Deloitte ou equivalente) chega à conclusão principal: NÃO SÃO OS RESULTADOS QUE CRIAM ASSISTÊNCIAS REGULARMENTE BOAS. O QUE AS CRIA É UM FORTE SENTIMENTO CLUBÍSTICO DE INDEPENDÊNCIA E DE IDENTIDADE.

Atenção que não é o bairrismo. Braga é tão ou mais bairrista do que Guimarães. Acaba em “ismo”, mas é diferente. É o “clubismo”. É o sentimento através do qual um grupo de pessoas acha que o seu clube é a única coisa que interessa e que todos os outros são rivais. Isto faz clubes.

Por isso, Guimarães tem 20.000 na Liga de Honra, enquanto Braga tem 11.000 na Taça UEFA.

E é esta conclusão principal que nos interessa. É esta a conclusão a que muitos no Belenenses querem fugir e que explica as tremendas asneiras que nos têm assassinado nos últimos anos e que têm, só para dar um exemplo, culminado com a inenarrável presença de centenas de adeptos de clubes adversários na bancada dos sócios.

Um teste permitiria testar isto empiricamente. Era questão de experimentar colocar as tais centenas de lagartos ou lampiões que têm acedido à nossa bancada, na bancada de sócios do Guimarães.

Não seria para os mesmos uma experiência violenta, pela simples razão de que não chegariam a entrar nessa bancada.

Quem acompanha o futebol sabe distinguir de memória as bancadas de sócios dos clubes onde há duplo cachecol e onde não há. Braga sempre foi e será um exemplo dessa presença. Guimarães, não. O resultado são 20.000 na segunda a 11.000 na UEFA.

A bancada de sócios do Restelo já foi um dos “locais livres de duplo cachecol”. Deixou de o ser nos últimos anos, havendo que “agradecer” a quem de direito.

Mais exemplos de que os resultados não são a mais importante fonte de mobilização, podem ainda ser encontrados no nosso futebol. É conhecida a história de um funcionário administrativo da UEFA que, respondendo a uma pedido de emissão de 3.000 bilhetes por uma colectividade portuense apurada para uma competição Europeia e que jogava em casa, decidiu enviar 30.000. Quando lhe devolveram os 27.000 excedentes, o aludido explicou que não tinha sequer imaginado ser possível que um clube recém campeão no seu país pudesse apenas ter 3.000 adeptos em casa e que, por isso, havia “corrigido” o pedido.

Ora, esse clube é aquele em que a referência mor, pai do actual presidente, é um conhecido e assumido sócio do Sporting e em que o filho, que agora gere o clube, decidiu, por razões monetárias, vender ¾ do estádio ao Benfica num jogo de há duas épocas, empilhando sócios e claque numa só bancada. O mesmo que contrata um treinador e, semanas depois, mediante um prato de lentilhas, obedece à ordem de requisição portista e o deixa sair para o rival local.

Enfim, vê quem quer.


Desmond Morris, ilustrou como a raiz do futebol é tribal. No futebol, as massas adeptas criam-se e mobilizam-se através de um sentimento de vínculo e de paixão, para os quais a identidade e independência - e a sua consequência necessária - a RIVALIDADE - são factores essenciais.

Os resultados são importantes, mas apenas como forma de alimentar esses factores.

Sozinhos não fazem nada!

Por alguma razão, nunca pegaram no futebol os jogos de exibição tipo “all start” e não há “concursos de pontapés de bicicleta”, como no Basket há concursos de afundanços.

A malta do futebol é feita de outra carnadura e vai ao estádio para ver bom futebol, mas, sobretudo, para ver a sua equipa ganhar, ou pelo menos, para lutar até à morte pela sua camisola.

O vínculo principal é à equipa. Não ao espectáculo.

Por fim, há o aspecto secundário a que também se alude na “questão bracarense”. O aspecto do estádio.

O paralelismo com o Restelo é evidente: magnifica obra de arquitectura, mas que não está pensada para cativar adeptos a lá ir. Ganha prémios de arquitectura, mas não de assistências.

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No Belenenses, já devíamos há muito estar a reflectir (ou mesmo a actuar) sobre isto. Pensamos que a solução andará por uma afirmação óbvia: pode-se ter uma grande obra de arquitectura, mas que seja, ao mesmo tempo, um estádio pensado para cativar gente para assistir ao futebol.

No nosso caso, os problemas são óbvios: bancadas a um kilómetro do rectângulo de jogo, ausência de espaços modernos e convidativos para os sócios, preferência pelas tascas, etc. etc.

Há que resolver isto!

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